Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
Sermão da Páscoa - ano da graça de 2010
René Ariel Dotti
Em
determinados dias da Semana Santa, a liturgia religiosa
se caracteriza pela lembrança da crucificação como supremo
sacrifício individual e redenção da fraternidade humana.
Palavras e imagens resgatam a dor do corpo e a libertação da
alma.
Existem
afinidades profundas entre os sentimentos de Justiça e de
religiosidade. Ambos estão ancorados na fé, como virtude
teológica. Quando o ser humano comparece perante o Juiz ou
Tribunal que decidirá sobre seu interesse, ele pratica,
invariavelmente, a liturgia da fé. Não importa se é uma pessoa
de bem ou um malfeitor, inocente ou culpado. Ele tem a
esperança, ou seja, a fé em obter uma sentença favorável.
A Páscoa é a
festa da ressurreição de Cristo, como esperança da humanidade.
Nesse dia a coluna forense dá lugar ao orador sacro,
missionário e diplomata português que veio ao Brasil ainda
criança. A família escolheu a cidade de Salvador, então
capital da Colônia. Ele estudou no Colégio dos Jesuítas, no
Espírito Santo, e depois em Salvador, quando definiu a vocação
para o sacerdócio. Pregou a liberdade dos índios; foi acusado
na Inquisição; sofreu nos cárceres do Santo Ofício; foi
interrogado e condenado em Portugal, em sentença
posteriormente anulada. Poderia, então, voltar aos púlpitos de
Lisboa para falar sobre temas políticos. Preferiu Roma. Mas,
desencantado em ambas as capitais, voltou ao Brasil e para a
Bahia, iniciando a publicação de seus sermões.
Sim, trata-se
do imortal Padre Antonio Vieira (1608 – 1697). Ele escreveu
cerca de 200 sermões, mais de 500 cartas e muitos estudos
políticos e literários. Como reconhecem os historiadores, o
estilo dos sermões é brilhante.
No Sermão
da Primeira Oitava da Páscoa, pronunciado em 1656, na
Matriz da cidade de Belém, ele diz que num dia tão alegre como
o da Páscoa, “em que pela gloriosa Ressurreição de Cristo,
redentor nosso, se revogou com a mesma glória a antiga
sentença de morte fulminada contra Adão e Eva, digna coisa de
admirar é que nem nas filhas de Eva, nem nos filhos de Adão,
se achem feitos de alegria. Amanheceu o Sol neste formoso dia
mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus
naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no
dia da Paixão. (...) Prometendo Cristo Redentor nosso
aos Escribas e Fariseus, em lugar de um milagre do Céu, que
lhe pediam, outro milagre maior na terra, disse que assim como
Jonas estivera três dias e três noites no ventre da Baleia,
assim ele havia de estar no coração da terra outros tantos
dias e noites, que foram os que se contaram desde a tarde de
sua sagrada morte, até a manhã de sua gloriosa Ressurreição”.
O sermão
conta que o ouro é o flagelo para os índios e os pobres e que
a salvação da alma é o único e verdadeiro bem.
O que mais
seria preciso dizer nesse domingo que assinala o retorno da
morte para a vida?
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 04.04.2010.
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