Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
Associação dos Magistrados do Paraná
René Ariel Dotti
A leitura sem a
controvérsia dos fatos e do Direito (II)
A revista cultural da
amapar reúne
textos de História, Poesia, Crônica e Pintura como expressões
espirituais de um grupo de profissionais do Direito e da
Justiça que exercem uma atividade rotineiramente cercada por
determinados limites. A controvérsia sobre os fatos narrados
pelas partes e sobre as normas legais aplicáveis constitui o
desafio permanente nas pautas dos juízes. O compromisso tácito
de manter reserva de opinião em torno de assuntos de interesse
público é uma das características do comportamento social e
funcional do magistrado. As exceções surgem – e são muito
bem-vindas – quando esse operador jurídico exerce funções de
representação classista e precisa promover a defesa de
interesses que lhe são confiados ou quando, no interesse de
esclarecer fato ou situação inerente às suas funções, presta
satisfações à comunidade fora dos espaços do processo.
A revista
Toga e Literatura abre outra generosa e fecunda
oportunidade para a manifestação do pensamento e a liberdade
de expressão, que permitem ao jurisdicionado conhecer a alma
dos homens e das mulheres que receberam da sociedade, do
Estado e da vida, o sagrado dever de julgar os interesses em
conflito e declarar os direitos a serem reconhecidos.
O termo
arte deriva do latim (ars, artis) e significa um
certo fazer, um certo saber ou um certo
sentir, como agrado ou como deleite. A arte pode
ser vista como manifestação do espírito humano na
interpretação do homem, do mundo e da vida e na criação de
referências, valores e interesses. E por litteratura
(arte de escrever), entende-se, geralmente, a arte do belo
em que se emprega a palavra como instrumento, compreendendo
não somente as produções poéticas como todas as obras de
natureza estética e científica, técnica ou tecnológica. A
literatura constitui um dos meios de expressão do
pensamento e de comunicação, e, em acepção ampla, significa o
conjunto de obras literárias em determinado período ou
especialidade. Fala-se, então, em literatura jurídica,
literatura médica, etc. Mas esse pretenso conceito é
muito vago e restrito para identificar o universo de certas
obras que venceram as marcas do tempo. Um exemplo nos vem do
texto redivivo de Veríssimo Gonçalves Pereira Netto, quando
lembra Eça de Queiroz: “Há escritores, escritores
excelentes que não resistem a mais de uma leitura. Esgotam-se
com uma só. Eça de Queiroz resiste a uma, a duas, a cem
leituras” (Toga e Literatura, p. 6).
Qual será o
segredo, qual será mistério que tem o poder de transformar a
palavra em traço de união entre a realidade e a ficção?
Em elo da corrente do pensamento? (Segue)
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 04.10.2009.
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