Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
Sermão da Páscoa: ano da graça de 2009
René Ariel Dotti
O sermão é o discurso sobre tema religioso.
A palavra e a idéia assumem elevação espiritual e dignidade
própria dos atos litúrgicos. Assim, não há inconveniente em
repeti-lo de tempos em tempos. É o que estou fazendo ao
reproduzir a crônica já publicada nesta coluna, nessa mesma
época do ano.
Existem afinidades muito nítidas entre os sentimentos de
Justiça e de religiosidade porque ambos estão ancorados na fé,
que é uma das virtudes teologais. Quando um cidadão comparece
perante o Juiz ou Tribunal que irá decidir sobre seu interesse
ele está, invariavelmente, praticando a liturgia da fé. Não
importa se ele é um homem de bem ou um malfeitor, inocente ou
culpado. Ele tem a esperança, ou seja, a fé em obter uma
sentença.
A Páscoa é a festa da ressurreição de Cristo, como esperança
da humanidade. Nesse dia o trabalhador forense dá lugar ao
orador sacro, missionário e diplomata português que veio ao
Brasil ainda criança. A família escolheu a cidade de Salvador,
então capital da Colônia. Ele estudou no Colégio dos Jesuítas,
no Espírito Santo, e depois em Salvador, quando definiu a
vocação para o sacerdócio. Pregou a liberdade dos índios; foi
acusado na Inquisição; sofreu nos cárceres do Santo Ofício;
foi interrogado e condenado em Portugal, em sentença
posteriormente anulada. Poderia, então, voltar aos púlpitos de
Lisboa para falar sobre temas políticos. Preferiu Roma. Mas,
desencantado em ambas as capitais, voltou ao Brasil e para a
Bahia, iniciando a publicação de seus sermões.
Sim, trata-se do imortal Padre Antonio Vieira (1608 1697). Ele
escreveu cerca de 200 sermões, mais de 500 cartas e muitos
estudos políticos e literários. Como reconhecem os
historiadores, o estilo dos sermões é brilhante.
No Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, pronunciado em 1656,
na Matriz da cidade de Belém, ele diz que num dia tão alegre
como o da Páscoa, "em que pela gloriosa Ressurreição de
Cristo, redentor nosso, se revogou com a mesma glória a antiga
sentença de morte fulminada contra Adão e Eva, digna coisa de
admirar é que nem nas filhas de Eva, nem nos filhos de Adão,
se achem feitos de alegria. Amanheceu o Sol neste formoso dia
mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus
naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no
dia da Paixão. (...) Prometendo Cristo Redentor nosso aos
Escribas e Fariseus, em lugar de um milagre do Céu, que lhe
pediam outro milagre maior na terra, disse que assim como
Jonas estivera três dias e três noites no ventre da Baleia,
assim ele havia de estar no coração da terra outros tantos
dias e noites, que foram os que se contaram desde a tarde de
sua sagrada morte, até a manhã de sua gloriosa Ressurreição".
O sermão conta que o ouro é o flagelo para os índios e os
pobres e que a salvação da alma é o único e verdadeiro bem.
O que mais seria preciso dizer nesse domingo que assinala o
retorno da morte para a vida?
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 12.04.2009.
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