Espaço do Acadêmico :
Voto:
liberdade e consciência como fundamentos da democracia*
Khalil Vieira Proença Aquim**
Rousseau (1712
– 1778) mencionava, já à sua época, que a democracia direta
será exercida, majoritariamente, através do voto. Assim, mesmo
que a Política se faça em atitudes diuturnas, às vésperas de
mais um pleito eleitoral não se pode tratar de assunto diverso.
Muito se
discorre acerca da escolha dos candidatos. Histórico,
ideologia, propostas e tantos outros fatores. Escândalos
políticos também não saem das capas dos jornais. Uma
peculiaridade neste processo eleitoral, porém, merece atenção
especial: a atuação dos institutos de pesquisa.
Motivo de
crítica por alguns e chacota por outros, a atuação destes
institutos, há muito questionada, foi vexatória no primeiro
turno das eleições.
A diferença
entre os números apontados pelas pesquisas divulgadas na noite
anterior à eleição e os números apontados nas urnas questionou
severamente a credibilidade dos institutos.
O humorístico
Kibe Loco deixou a esfera da comédia para a explícita
revolta: “E aí, institutos de pesquisa? Foi incompetência ou
má fé mesmo?”. O deputado federal Ciro Gomes afirmou, em
entrevista, que o dono de um instituto de pesquisa “vende
até a mãe para ganhar dinheiro”.
Por que,
então, encomendam-se tantas pesquisas?
São
necessárias para nortear as campanhas, certamente. Nas palavras
de Carlos Manhanelli, “a pesquisa é a principal ferramenta
utilizada para se montar uma estratégia”.
Na prática,
porém, a função é outra. Ela é utilizada não apenas
internamente aos comitês eleitorais, mas também na mídia, como
forma de persuadir o eleitorado. O cientista político chileno
Xosé Rúas frisa que o abuso dos institutos de pesquisa faz
delas uma perigosa arma de informação, que exerce pressão sobre
o eleitorado e desestabiliza os adversários.
No Brasil não
é diferente. Denuncia o professor Edmundo Brandão Dantas a
influência negativa das pesquisas devido à popular cultura
brasileira do voto útil. O tema é complexo, mas
demonstra, nos enfoques sociológico, psicológico e estatístico,
a sua influência no voto do eleitor brasileiro, resumida na
máxima “não vou desperdiçar meu voto em um candidato que não
vai ganhar as eleições”.
Assim, as
pesquisas favorecem o candidato que aparece em primeiro nas
intenções de voto. Eventualmente, o segundo e até o terceiro
podem delas se beneficiar, quando a diferença para o primeiro
for pequena ou quando demonstrarem ascensão. Saem
inevitavelmente prejudicados os demais candidatos, por serem
os que não vão ganhar as eleições.
A Constituição
Federal garante que todo o poder emana do povo. Para o
exercício desse poder, elegem-se os representantes, cuja
escolha deve ser embasada não pela influência coletiva, mas
pelos valores e princípios defendidos pelo candidato, por suas
propostas e seu histórico.
Cada voto faz
diferença no processo eleitoral. A história política nacional
traz vários casos em que a eleição foi definida por poucos
votos. Há casos recentes (2004, em Indaial/SC e em Grão
Pará/SC) em que a vitória se deu por um único voto.
Uma passagem
curiosa foi quando, em Cascavel, nas eleições de 1952, José
Neves Formighieri elegeu-se prefeito por um único voto de
diferença. A peculiaridade do caso se deu pelo fato de,
confiante da vitória, o adversário de Formighieri, Tarqüínio
Joslin dos Santos, não ter votado. Desperdiçou seu voto,
culminando na vitória do candidato concorrente.
Kelsen lembra
que, no início do século XIX, a democracia ganhou força
descomunal, avançando na ideologia da burguesia emergente. “O
futuro pertencia a um governo pelo povo. Essa era a esperança
de todos os que acreditavam no progresso, que defendiam padrões
mais elevados de vida social”.
O futuro ainda
pertence ao governo do povo. Se houvesse um povo de deuses,
como disse Rousseau, ele se governaria de forma democrática.
Rousseau
promove ainda a necessidade de o cidadão armar-se de força
de constância, e lembrar cada dia no fundo de seu coração, o
que disse um palatino na dieta da Polônia: malo periculosam
libertatem quam quietum servitium”.
Muito se fala
acerca da necessidade de um voto consciente. Nas próximas
eleições, não o deixe de lado. Fortaleça a democracia, faça a
sua parte. Vote consciente. Vote livre.
* artigo publicado no Jornal O Estado do Paraná em
28/10/2010.
** acadêmico do 8° período de Direito da
PUC/PR e estagiário do Escritório Professor René Dotti.
|